Sinfonia Agridoce

Reza a lenda que uma das maiores maldições que chineses podem desejar a alguém é que “viva em tempos interessantes“.
Por mais que se trate de uma lenda apócrifa, que eu não lembre de ter conhecido nenhum chinês que possa me ter amaldiçoado, e que anos sejam apenas convenções arbitrárias, é difícil não olhar para trás e pensar o quanto esse moribundo 2011 foi, digamos, interessante. Em 2011, vi algumas das maiores certezas da minha vida desabarem como um proverbial castelo de cartas.
Depois de 7 anos do que era o final feliz de uma comédia romântica hollywoodiana, me separei da Mirella. Perdi não só a certeza de tudo que se constrói ao longo de tantos anos, mas também a de ser capaz de amar, de me deixar ser amado e, mais que tudo, de me sentir uma boa pessoa comigo e com quem gosto.
Depois de 2 anos de ADBAT, de ter comprado uma aposta do cara com quem mais aprendi e em quem mais confiei em todos esses anos de mercado de publicidade, pedi para sair. Perdi não só a certeza de fazer parte de um projeto no qual acreditava inteiramente, mas também de estar cercado de colegas em quem confiava – alguns dos quais tive grande participação em levar para a agência – e de ser digno da confiança deles.
Depois de 4 anos de São Paulo, de uma relação de amor e ódio com uma cidade que sempre soube me botar no meu lugar e me fazer tentar ser melhor em tudo, aceitei uma proposta para voltar pra minha Porto Alegre natal. E nisso perdi, essencialmente, a certeza de tudo que efetivamente lutei para construir ao deixar a comodidade de viver com meu pai, na cidade em que nasci e vivi por 28 anos. Perdi a certeza da minha casa, da minha cidade, dos meus amigos, da minha vida.
E, ainda assim, tenho certeza que tudo isso foi bom. Ao perder todas essas certezas, fui obrigado a reavaliar tudo e todos que são importantes para mim. Tive que buscar novas certezas e, até mesmo, questionar o quanto preciso ter alguma.
Óbvio que não é papo de auto-ajuda, não acho que estou iniciando uma nova vida ou mesmo repetindo algum mantra pra fazer de conta que não passei por um monte de momentos tristes, ou mesmo que ainda tem coisas que me incomodam nisso tudo. As pessoas não mudam de forma tão brusca, apenas vão fazendo pequenas correções de percurso ao longo da vida. Mas, pra roubar o que disse a Veronica num belíssimo post lá nas Supremas, “sobrevivi”.
Para mim, o resumo deste 2011 vai ser o último dia que passei em São Paulo. Por um lado, um dia triste, em que tive que escrever meu email de despedida da ADBAT/TESLA, limpar minha mesa e encarar o adeus simbólico a todas essas coisas que falei aí em cima. Por outro, um dia em que recebi o carinho de um monte de gente importante, uma despedida enjambrada por bons amigos do trabalho na padoca da esquina, e uma surpresa final e genial na hora do embarque pra Porto Alegre.
Um ano interessante, de fato. E vamos ver até quando dura a maldição.























