Porto Alegre me faz

Antes e durante: sala

Cheguei a brincar, com uma amiga, que achava que morreria em um acidente no vôo da volta, para que todos aparecessem na TV dizendo “parece que ele sabia que isso ia acontecer, passou esse tempo todo buscando encontrar os amigos, fazer festas, como se desse um último adeus”.

Há tecnicamente um ano sem ir para Porto Alegre, a alegria de rever e receber atenção dos amigos, bem como de ter 22 dias sem compromissos profissionais, acabaram tendo em mim efeito parecido com uma leve bebedeira: ao invés do casmurro de sempre, minha vontade era de abraçar a todos e dizer que os considerava para caralho (antes mesmo do primeiro chope).

As defesas baixas, no entanto, também acabaram por causar certa tristeza diante do cenário de descaso e pobreza que a cidade me passou. Um amigo, ao me dar uma carona no dia 1°, comentou com naturalidade que “só tem mendigo na rua”. Una isso à inexistência de polícia nas ruas e a última vez que me senti tão inseguro na vida foi ao caminhar por Copacabana em plena madrugada, em 99.

As ruas parecem não ser pintadas há mais de ano, calçadas e meios-fios acumulam muita sujeira, os prédios em geral têm aquele tom pastel típico de pintura desbotada que sempre achei característico de cidades do interior. E a aparente decisão dos gaúchos de eleger governador o prefeito sob cuja égide a Capital ficou desta maneira só aumenta a tristeza.

No fim, a certeza de não querer voltar a morar em Porto Alegre tão cedo, mas de querer mais perto pelo menos quatro ou cinco grandes amigos que por lá estão. Ao menos, fica a sensação de dever cumprido em ter-lhes dito, de alguma forma, que os considero pra caralho.

Ah, sim, e caso alguém esteja se perguntando, aquela foto lá em cima é de Porto Alegre. Foi tirada por meu genitor à beira do Lago Guaíba, a menos de duas quadras de nossa casa em Ipanema. Então, quando quiserem entender o que ainda me vem à cabeça quando penso em “viver em Porto Alegre” e por que o cenário vertical de São Paulo me incomoda tanto, lembrem-se que este aí é o jardim onde fui criado.