Who dat?

Tracy Porter intercepta Peyton Manning / AP

Sinto-me vingado. Na noite deste domingo os dois melhores ataques da NFL se encontraram em Miami para disputar o Super Bowl XLIV, trazendo de reboque duas das piores defesas do campeonato. E o resultado foi um dos mais belos e disputados jogos de futebol americano em muito tempo.

Claro, nos próximos dias muitos vão falar de como o Saints tem um esquema agressivo de jogo, onde dão muitas jardas para os adversários mas permitem poucos pontos e criam muitos erros. Torcedores do Colts vão lembrar do tornozelo machucado de Dwight Freeney e do pé de Jerraud Powers, ou até cometer o absurdo de querer botar a culpa do resultado na abritragem.

Mas o que realmente interessou neste jogo foi o ataque. Como o Saints soube ser agressivo na medida certa, arriscando jogadas como o onside kick pra iniciar o terceiro quarto ou a conversão de dois pontos depois de um touchdown, ao mesmo tempo em que encurtou seu jogo e avançou aos poucos, sem criar riscos desnecessários diante de uma linha secundária jovem e ágil. E como, 10 anos depois, podemos enterrar o maldito Super Bowl XXXV e os rapazes da foto aí embaixo pelos anos vindouros.

Baltimore Ravens, Super Bowl XXXV champions

Naquele ano, o Baltimore Ravens foi campeão sobre o New York Giants em um dos jogos mais feios a que já tive o desprazer de assistir. Para quem não se lembra, foi um massacre: 34 x 7 para o campeão da AFC, que anotou 4 sacks e forçou 5 erros do ataque adversário – exceto por um retorno de punt para touchdown, todas as vezes em que o Giants esteve com a bola acabaram em um punt ou uma interceptação.

Mas não se engane pelo placar. De todos esses pontos, apenas o primeiro touchdown do Ravens veio de um passe. Todos os outros foram de interceptações, retorno de punt ou jogo corrido. Não por acaso, o MVP do jogo foi Ray Lewis, um defensor.

A partir dali, estava determinado que para ter uma esperança de levar o troféu Vince Lombardi para a casa, um time de futebol americano precisava, antes de mais nada, de uma sólida defesa. Ali começaria o império do New England Patriots, o maior exemplo que já houve de misturar uma defesa impenetrável com um ataque um pouco acima da média. Mesmo o Colts, quando conseguiu garantir o único anel a adornar os dedos de Peyton Manning, o fez sobre a segunda melhor defesa da liga no jogo aéreo.

Mas isso acabou neste domingo. E não só porque os dois times que foram ao Super Bowl tinham algumas das piores defesas da liga, mas porque o Saints mostrou como ter um bom ataque pode, afinal de contas, ser a melhor defesa. Ao longo de toda a temporada, o Colts venceu times como Patriots e Jets do mesmo jeito: atacando, atacando, atacando. Amassando a defesa adversária e, com o no-huddle elevado a arte por Manning, vencendo no cansaço, se necessário.

O que parecia não estar em seus planos era pegar um time capaz de fazer a mesma coisa. Um time com uma defesa acostumada a ceder muitas jardas sem deixar isso afetar seu plano de jogo, por saberem que o ataque consegue segurar as pontas e lhes dar tempo para respirar e reagrupar. Um time que distribui muito bem a bola e sabe da importância de ganhar espaço no campo. Um time que, passado o susto do primeiro quarto, soube aos poucos ter a maior posse de bola no ataque e começar a botar pressão em um Peyton Manning que, verdade seja dita, era considerado um grande amarelão até quatro anos atrás.

Quem, como eu, realmente se interessa pelo jogo, terá um dia muito feliz pela frente lendo incontáveis análises sobre todos os meandros da partida. Mas o que mais interessa é: acabou a ditadura das defesas na NFL. Que os técnicos e jogadores em geral aprendam a ousar mais. E quem sabe ano que vem o Dolphins não dá um jeito de, ao menos, aparecer nos playoffs? Eu não me importaria de ver o Wildcat com mais frequência.

P.S.: um detalhe interessante é que assisti à primeira metade da partida numa transmissão da ESPN HD pela Sky, numa sala do Cinemark do Shopping Eldorado. Segundo o representante do Cinemark que falou à platéia, a idéia é que esse tipo de coisa comece a acontecer com mais frequência, com ingressos à venda para o público em geral. Posso garantir que eu pagaria, em uma série de casos.

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